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Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos Porque tinha uma mulher no pensamento Sei que os lavava como se os contasse
Sei
que os enxugava com a luz da mulher Com
os seus olhos muito claros voltados para o centro Do
amor, na operação poderosa Do
amor Sei
que cortava os cabelos para procurá-la Sei
que a mulher ia perdendo os vestidos cortados Era
um homem imaginado no coração da mulher que lavava O
cabelo no seu sangue Na
água corrente Era
um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir E
a mulher cantava para o homem respirar
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Homens
que são como lugares mal situados Homens
que são como casas saqueadas Que
são como sítios fora dos mapas Como
pedras fora do chão Como
crianças órfãs Homens
sem fuso horário Homens
agitados sem bússola onde repousem Homens
que são como fronteiras invadidas Que
são como caminhos barricados Homens
que querem passar pelos atalhos sufocados Homens
sulfatados por todos os destinos Desempregados
das suas vidas Homens
que são como a negação das estratégias Que
são como os esconderijos dos contrabandistas Homens
encarcerados abrindo-se com facas Homens
que são como danos irreparáveis Homens
que São sobreviventes vivos Homens
que são como sítios desviados Do lugar Página
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Homens
que trabalham sob a lâmpada Da
morte Que
escavam nessa luz para ver quem ilumina A
fonte dos seus dias Homens
muito dobrados pelo pensamento Que
vêm devagar como quem corre As
persianas Para
ver no escuro a primeira nascente Homens
que escavam dia após dia o pensamento Que
trabalham na sombra da copa cerebral Que
podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas Homens
todos brancos que abrem a cabeça À
procura dessa pedra definida Homens
de cabeça aberta exposta ao pensamento Livre.
Que vêm devagar abrir Um
lugar onde amanheça. Homens
que se sentam para ver uma manhã Que
escavam um lugar Para a saída. Página
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Repito
que vivo enclausurado na agilidade de um animal nascido Correndo
ao lado dele, correndo para ele – era assim Que
eu queria que fosse a linguagem veloz: Uma
casa para a infância com trepadeiras Para
que as palavras ficassem como frutos no alto. Repito
acorrida na memória quando estou parado Penso
velozmente que o amor, como Dante disse, é um estado De
locomoção. É um motor. E fico a trabalhar no mecanismo secreto Do
amor. Sei
que estou em viagem na palavra que se move. Repito
o trajecto para ver o poema de novo – era assim Que
eu queria que fosse a linguagem de uma coisa amada Correndo
ao meu lado, correndo para mim no mecanismo violento Do
amor. Era nele que eu queria a casa com trepadeiras Onde as palavras ficassem silenciosas e altas como um pátio interior. Página
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ELOGIO
DA MULHER (Pr 31,14) O
coração da mulher é alto Mas
nem só por isso a mulher oscila Ela
é como o navio mercante Que
chega carregado de grão A
mulher é o tear dentro da vida Nem
só por
isso a mulher é mais que
a vida Ela
é como o navio mercante Que chega carregado de grão
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CHARLES
DE FOUCAULD Pensa
que morrerás mártir. Entre talhas Ao
cair ressoará o teu corpo sobre o bojo. Pensa
que morrerás Esta
tarde. Com o sangue no peito a marcar o umbral Da
tua morada. Nu morrerás E
desconhecido. Na terra só o adorno Possui
o reconhecimento Pensa
que morrerás No
chão À
tua porta. E
nunca mais acabarás De regressar
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Este
é o dia novo. Sei-o pelo desejo De
o transformar. Este é o dia transformado Pelo
modo como apoio este dia no chão. Coloco-o
na posição humilde dos meus joelhos na terra Abro-o
com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo Na
atenção. E
fico atento, fico deitado porque não sei crescer Num
terreno que se levante. Cresço na clareira de um homem que é uma palavra Na
sua túnica inteira Porque
este é o sítio do dia sem horário Sem
divisões E
ponho-me de frente no seu lado, Nos
seus braços abertos para me unir E
entro pelo lado aberto e ardo – como Elias Em
chamas subindo para o céu.
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